Iniciamos o Advento


Entramos no novo Ano Litúrgico com o tempo do Advento. Este tempo nos chama a atenção para a Vigilância, para acolher os Sinais de Deus nesse Ano A, em que nos acompanhará aos domingos principalmente o Evangelho de São Mateus.

Com o Advento, entramos no tempo que nos prepara para a segunda vinda de Cristo e para o Natal do Senhor, sua primeira vinda na história. Este tempo de esperança nos faz relembrar e reviver as primeiras etapas da História da Salvação, quando os homens e as mulheres se preparavam para a vinda do Salvador, a fim de que também nós possamos preparar hoje em nossa vida a vinda de Cristo por ocasião do Natal. Nas duas primeiras semanas do Advento, vigilantes e alertas, esperamos a vinda definitiva e gloriosa do Cristo Salvador, e nas duas últimas semanas, lembrando a espera dos profetas e de Maria, preparamos mais especialmente o seu nascimento em Belém.

O tempo do Advento vem acompanhado do convite do profeta Isaías: “Dizei aos que têm o coração pusilânime: “Tomai ânimo, não temais… o nosso Deus… vem em pessoa salvar-nos “” (Is 35, 4). Ele torna-se mais envolvente com a aproximação do Natal, enriquecendo-se com a exortação a preparar o coração para o acolhimento do Messias. Aquele que o povo espera virá certamente, e a sua salvação será para todos os homens.

A liturgia do Advento, repleta de evocações constantes da expectativa jubilosa do Messias, ajuda-nos a compreender plenamente o valor e o significado do mistério do Natal. Não se trata de comemorar apenas o acontecimento histórico, que se verificou há mais de dois mil anos numa pequena aldeia da Judéia. Ao contrário, é preciso compreender que toda a nossa vida deve ser um “advento”, uma expectativa vigilante da vinda definitiva de Cristo. Para predispor o nosso coração para receber o Senhor que, como dizemos no Credo, virá um dia para julgar os vivos e os mortos, devemos aprender a reconhecê-Lo, Ele que está presente nos acontecimentos da existência quotidiana. Então o Advento é, por assim dizer, um treino intenso que nos orienta decisivamente para Aquele que já veio, que virá e que vem continuamente.

“Na linguagem da Igreja, a palavra Advento tem dois significados: presença e expectativa. Presença: a luz está presente, Cristo é o novo Adão, está conosco e no meio de nós. Já resplandece a luz e devemos abrir os olhos do coração para ver a luz e para nos introduzirmos no rio da luz. Estar, sobretudo, gratos pelo fato de que o próprio Deus entrou na história como nova fonte de bem. Mas Advento significa também expectativa. A noite escura do mal ainda é forte! E por isso rezemos no Advento com o antigo povo de Deus: “Rorate caeli desuper”. E rezemos com insistência: vem, Jesus, dá força à luz e ao bem; vem onde dominam a mentira, a ignorância de Deus, a violência, a injustiça, vem, Senhor Jesus, dá força ao bem no mundo e ajuda-nos a ser portadores da tua luz, artífices da paz, testemunhas da verdade. Vem, Senhor Jesus!” (Papa Bento XVI)

O Advento é celebrado com sobriedade e com uma alegria discreta, quase contida. Por isso, não se canta o Glória, que fica reservado para a noite e o dia do Natal, quando juntamos nossa voz à dos anjos para dar glória a Deus pela salvação que realiza em nosso meio.

A celebração do Advento é, portanto, um meio precioso e indispensável para nos ensinar sobre o mistério da salvação e colocarmos a nossa vida tendo como referência Jesus, fundamento da nossa fé, dispondo-nos a “perder” a vida em favor do anúncio e instalação do Reino. Por isso, a liturgia do Advento nos impulsiona a reviver alguns dos valores essenciais cristãos, como a alegria expectante e vigilante, a esperança, a pobreza, a conversão. Deus é fiel às suas promessas: o Salvador virá; daí a alegre expectativa, que deve, neste tempo, não só ser lembrada, mas vivida, pois aquilo que se espera acontecerá com certeza.

Portanto, não se está diante de algo irreal, fictício, passado, mas diante de uma realidade concreta e atual. A esperança da Igreja é a esperança de Israel já realizada em Cristo, mas que só se consumará definitivamente na parusia do Senhor. Por isso, o brado da Igreja característico neste tempo é “Maranatha”! Vem, Senhor Jesus!

O tempo do Advento é tempo de esperança, porque Cristo é a nossa esperança (1Tm 1, 1); esperança na renovação de todas as coisas, na libertação das nossas misérias, pecados, fraquezas, na vida eterna, esperança que nos forma na paciência diante das dificuldades e tribulações da vida, diante das perseguições etc.

O Advento é tempo propício à conversão. Sem um retorno de todo o ser a Cristo não há como viver a alegria e a esperança na expectativa da sua vinda. É necessário que “preparemos o caminho do Senhor” nas nossas próprias vidas, “lutando até o sangue” contra o pecado, por meio de uma maior disposição para a oração e mergulho na Palavra. Nesse sentido agradeço todo o trabalho dos “mutirões de confissões” que acontecem em toda a Arquidiocese quando tantos padres se dedicam, com afinco, ao atendimento das confissões. Poderíamos até pensar em dias e horários para atendimento de confissões em locais públicos, fora dos templos, para ajudar aqueles que trabalham nos shopping centers e em outros locais, como tivemos também durante a Jornada Mundial da Juventude. Devemos ir ao encontro daqueles fiéis batizados que não atingimos com nossas estruturas paroquiais.

No Advento, precisamos nos questionar e aprofundar a vivência da pobreza e da misericórdia, como nos tem pedido insistentemente o Papa Francisco. Na tarde do último sábado, dia 30 de novembro, como já é tradição no inicio do Advento, o Papa rezou na Basílica de São Pedro as primeiras Vésperas com os Estudantes e Professores das Universidades Pontifícias e Ateneus Romanos e italianos.  Nas palavras que lhes dirigiu, o Papa Francisco disse que Deus nos concedeu muitos tesouros espirituais. Por que, então, deve intervir sempre para mantê-los íntegros? – perguntou-se, logo respondendo que é porque nós somos débeis, a nossa natureza humana é frágil e os dons de Deus são conservados em nós como que num vaso de barro (ele tratou desse tema aqui no Rio de Janeiro, na missa que celebrou para o Seminário São José, no Sumaré). Disse o Papa que a intervenção de Deus a favor da nossa perseverança até ao encontro definitivo com Jesus é expressão da sua fidelidade, antes de mais consigo próprio. A obra que começou em cada um de nós leva-o a cumprimento. E isto dá-nos segurança e confiança, uma confiança que assenta em Deus e requer a nossa colaboração ativa e corajosa, perante os desafios do presente. O convite do Papa aos jovens universitários, que com a sua vontade e capacidade, unidas à potência do Espírito Santo que habita em cada um, consentem-lhes ser não espectadores, mas protagonistas do mundo contemporâneo, vale para todos os que são batizados e deve ser a mola propulsora deste tempo da graça, de fidelidade à Palavra de Deus e de fazer da nossa vida um verdadeiro presépio.

Abrindo o tempo do Advento, assim se expressou o Papa Francisco: “Na vida de cada um de nós há sempre uma necessidade de recomeçar, de levantar-se, de recuperar o sentido da meta de sua existência”. “Assim, para a grande família humana, é necessário renovar sempre o horizonte comum para o qual estamos a caminho. O horizonte da esperança! O tempo do Advento, que hoje novamente iniciamos, nos dá o horizonte da esperança, uma esperança que não desilude, porque é fundada sobre a Palavra de Deus.” Bom advento a todos!

Dom Orani Tempesta – Arcebispo do Rio de Janeiro, RJ

É possível ver a Deus


Jesus Cristo “Mediador e plenitude de toda a Revelação”

Queridos irmãos e irmãs,

o Concílio Vaticano II na Constituição sobre a Divina Revelação Dei Verbum, afirma que a verdade íntima da revelação de Deus brilha para nós “em Cristo, que é juntamente o mediador e a plenitude de toda a Revelação” (n 2) . O Antigo Testamento nos narra como Deus, após a criação, apesar do pecado original, apesar da arrogância do homem de querer colocar-se no lugar do seu Criador, oferece novamente a possibilidade de sua amizade, sobretudo por meio da aliança com Abraão e o caminho de um pequeno povo, o de Israel, que Ele escolhe não com critérios terrenos, mas simplesmente por amor. É uma escolha que permanece um mistério e revela o estilo de Deus que chama alguns não para excluir outros, mas para fazê-los de ponte que conduza a Ele: eleição é sempre eleição para o outro. Na história do povo de Israel é possível refazer os passos de um longo caminho no qual Deus se faz conhecer, se revela, entra a história com palavras e ações. Para esta obra Ele utiliza mediadores, como Moisés, os Profetas, os Juízes, que comunicam ao povo a sua vontade, recordam a exigência da fidelidade à aliança e mantêm viva a realização plena e definitiva das promessas divinas.

E é exatamente a realização destas promessas que contemplamos no Santo Natal: a Revelação de Deus alcança o seu cume, a sua plenitude. Em Jesus de Nazaré, Deus realmente visita o seu povo, visita a humanidade de uma forma que vai além de todas as expectativas: envia o seu Filho Unigênito; faz-se homem o próprio Deus. Jesus não nos diz algo sobre Deus, não fala simplesmente do Pai, mas é a revelação de Deus, porque é Deus, e revela assim a face de Deus. No Prólogo do seu Evangelho, São João escreve: “Deus, ninguém jamais o viu: Ninguém jamais viu Deus. O Filho único que está no seio do Pai foi quem o revelou” (João 1, 18).

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Nota de Agradecimento


Taboão da Serra, 31 de Março de 2013.

 

Aos

Servos do Ministério da Acolhida

 

Queridos irmãos, Paz e Bem !

É com grande alegria, que manifestamos nossa gratidão pelos dias de doação do tempo de cada um, os quais gostaríamos de dizer cada nome, mas vamos representar simplesmente por Maria e José, nomes estes da Sagrada Família e somos esta família, a família da acolhida do Santuário Santa Terezinha, a família de Maria e José que acolheu de braços abertos o menino Jesus na Manjedoura, a família de José que cumpriu seu papel de pai até onde lhe foi permitido, a família de Maria que foi obediente desde a concepção até o momento da Cruz, a Maria que disse sim, o sim da obediência.

Nós somos os servos da obediência e do serviço, devemos estar sempre alertas e prontos para servir, devemos ser os servos da oração e da doação, para que cada pessoa que entre em nosso Santuário seja uma pessoa amada e acolhida e que se sinta o gosto de “Quero voltar novamente”.

Peçamos sempre que o Espírito Santo derrame sobre nós o fogo que aquece, o fogo que incendeia os nossos corações, transformando-nos em pessoas calorosas, pessoas que saibam acolher de maneira efusiva, que este espírito nos dê a coragem de praticarmos gestos concretos, assim como Jesus Cristo o fez, saindo do abstrato e se transformando em gesto concreto, “O verdadeiro Pão da Vida, o cordeiro que se doou em remissão dos pecados”.

Queridos irmãos, não basta crer, precisamos acima de tudo nos comprometer com o Ressuscitado, e como dizia Santo Agostinho: “Não é grande coisa crer que Cristo tenha morrido, porque nisto também acreditam os pagãos, os judeus e todos os iníquos; todos acreditam que ele morreu; a fé dos cristãos é na ressurreição de Cristo”.

Às vezes somos duros de coração. São Gregório Magno nos diz que: “A razão pela qual tardaram em acreditar na ressurreição do Senhor, não foi tanto pela fraqueza, mas para nossa futura firmeza na fé; pois a própria ressurreição demonstrada com muitos argumentos aos que duvidaram, que outra coisa significa, senão que a nossa fé se fortalece com estas dúvidas”.

E agradecendo mais uma vez o empenho de cada um nesta Semana Santa, deixando claro o gosto de dever cumprido, desejamos a todos um dia novo a cada novo dia e façamos este dia ser o dia de nossas vidas vivendo-o como um dia único e dizendo sempre que “A vida com Jesus é mais feliz!”.

E viva o Cristo ressuscitado!

Abraços fraternais,

Coordenação de Núcleo do Ministério da Acolhida

O Tempo Quaresmal


Quaresma: o grande retiro cristão

Iniciando na Quarta-feira de Cinza até o Domingo de Ramos, a Igreja convida a seus filhos e filhas a se prepararem para Celebrar a Páscoa Cristã, através da prática da meditação, do jejum e da caridade. Esse período de 40 dias é chamado de Quaresma (da palavra latina quadragésima, que significa 40).

Ao longo do período quaresmal somos convidados a meditar e reconhecer a presença de Deus em nossa vida, em nossas alegrias e dores, lutas e vitórias. Essa mística é tão forte nesse período que contemplamos a caminhada do povo hebreu pelo deserto, por 40 anos, para chegar a terra prometida. Contemplamos também os 40 dias de retiro que Jesus passou no deserto, após o seu batismo, preparando-se para iniciar a missão que o Pai lhe havia confiado.
“A Quaresma é um tempo forte de conversão, de mudança interior, tempo de deixar tudo o que é velho em nós, tempo de assumir tudo o que traz vida para a gente, em nossas comunidades e na sociedade. Tempo de graça e salvação, onde nos preparamos para viver, de maneira intensa, livre e amorosa, o momento mais importante do ano litúrgico, da história da salvação, a Páscoa, Aliança definitiva, vitória sobre o pecado, a escravidão e a morte” (Manual da CF, CNBB).
A Quaresma é marcada por uma espiritualidade penitencial, de recordação da vida à luz do mistério da paixão e morte de Cristo Jesus. A liturgia acompanha essa mística através de cantos, leituras e orações que ajudam o coração e a mente dos fiéis a realizar o exame de consciência sobre suas atitudes diante de Cristo, de sua Igreja e dos irmãos, de modo especial aqueles que padecem como o Cristo sofredor.
“Todavia, a característica fundamental do tempo quaresmal não é o de ser somente um tempo de jejuns, mortificações e sacrifícios para que os cristãos participem  dos sofrimentos de Jesus na Cruz. O que marca a Quaresma é, sobretudo, sua dimensão pascal: caminho para a Páscoa. Comemorando o acontecimento salvador da morte e da ressurreição de Jesus Cristo, a Igreja celebra o novo nascimento dos que serão batizados, renova a vida dos que foram batizados e a reconciliação dos pecadores arrependidos. Assim, a caminhada quaresmal prepara  e ensaia a grande festa da Páscoa.” (Manual da CF, CNBB).
A Igreja Católica propõe, por meio do Evangelho proclamado na Quarta-feira de Cinzas (Mt 6,1-6.16-18), três grandes linhas de ação: a oração, a penitência e a caridade. Não somente durante a Quaresma, mas em todos os dias de sua vida, o cristão deve buscar o Reino de Deus, ou seja, lutar para que exista justiça, a paz e o amor em toda a humanidade. Os cristãos devem então recolher-se para a reflexão para se aproximar de Deus. Esta busca inclui a oração, a penitência e a caridade, esta última como uma consequência da penitência.

Bento XVI renuncia ao ministério de Bispo de Roma


A Sede de São Pedro ficará vacante a partir de 28 de Fevereiro. Será convocado o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice.

Apresentamos as palavras com que Bento XVI anunciou a sua renuncia:

Caríssimos Irmãos,

convoquei-vos para este Consistório não só por causa das três canonizações, mas também para vos comunicar uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado. Por isso, bem consciente da gravidade deste acto, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de Abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de Fevereiro de 2013, às 20,00 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice.
Caríssimos Irmãos, verdadeiramente de coração vos agradeço por todo o amor e a fadiga com que carregastes comigo o peso do meu ministério, e peço perdão por todos os meus defeitos. Agora confiemos a Santa Igreja à solicitude do seu Pastor Supremo, Nosso Senhor Jesus Cristo, e peçamos a Maria, sua Mãe Santíssima, que assista, com a sua bondade materna, os Padres Cardeais na eleição do novo Sumo Pontífice. Pelo que me diz respeito, nomeadamente no futuro, quero servir de todo o coração, com uma vida consagrada à oração, a Santa Igreja de Deus.

Vaticano, 10 de Fevereiro de 2013.

BENEDICTUS PP. XVI

Viver extraordinariamente o cotidiano


A liturgia nos ensina a importância do cotidiano, iluminado pela presença de Cristo Ressuscitado em nosso dia a dia

Atualmente estamos vivendo na liturgia o Tempo Comum. Isso pode dar ideia de não ser um momento importante dentro do ano litúrgico. Porém, não é essa a realidade. Cada tempo litúrgico tem sua importância e necessidade. É um tempo no qual Deus continua nos santificando. Tempo comum em que o homem se encontra com Deus que no Verbo Encarnado, celebrado no Natal, tornou-se próximo de nós. Tempo comum em que nos encontramos com nossos irmãos e irmãs seja na Igreja, seja no trabalho, ou nas nossas tarefas cotidianas, desde as mais simples às mais complexas, e fazemos desse tempo uma oportunidade de viver extraordinariamente o dia a dia. Após o tempo do Natal iniciamos este momento litúrgico que, após a celebração da Quaresma e Páscoa, continua após Pentecostes até o próximo Advento. É o tempo mais extenso que vivemos durante o ano litúrgico. Recorda-nos que os mistérios que celebramos, Encarnação (Advento e Natal) e Redenção (Quaresma e Páscoa), devem ser encarnados na história de cada dia, na caminhada da Igreja.

Muitas vezes não percebemos a importância das tarefas comuns, o que nos leva a dar mais atenção aos momentos extraordinários. No entanto, a vida de cada um de nós, embora tenha momentos marcantes, é vivida no cotidiano. E a liturgia nos ensina a importância do cotidiano, iluminado pela presença de Cristo Ressuscitado em nosso dia a dia. Dessa forma, a liturgia diária nos faz perceber e experimentar sempre mais a presença do Senhor em nossas vidas. É o tempo em que vemos os sinais dos nossos irmãos e irmãs que seguiram a Cristo em todas as épocas e situações e são até hoje sinais e exemplos para nós – os Santos – demonstrando que assim como no passado, ainda hoje somos chamados a viver na fidelidade ao Evangelho, no seguimento de Jesus Cristo.

Em todas as épocas históricas, em todos os tipos de política, com liberdade religiosa ou com perseguições, dentro das mais diferentes ideologias, em qualquer situação de crise econômica ou cultural, a Igreja continua perseverando na fé e vivendo o alegre seguimento e anúncio de Jesus Cristo, o Senhor e Salvador.

Celebraremos assim a nossa liturgia na simplicidade e no louvor próprio deste tempo e, por isso, viveremos a graça na nossa vida comum, fazendo dos dias normais, dias de grandes bênçãos.

Os evangelhos também nos apresentarão a vida cotidiana de Jesus, as suas caminhadas, o estar com os discípulos, o tempo de oração, as idas aos locais de culto.

Aos domingos, a que chamamos Tempo Comum, são de suma importância para nossa vida espiritual. A Igreja nos recorda que é a Páscoa semanal. É o dia do Senhor, quando a comunidade se encontra em torno ao altar na escuta da Palavra de Deus e ao partir o Pão. Tão importantes, que sem eles não poderíamos compreender a totalidade da vida de Cristo, e que se reportam sempre à Páscoa. Sem dúvida que o alimento da Eucaristia ocupa o centro de nossa vida litúrgica, e sempre somos chamados a buscar “estar com o Senhor” nesse augustíssimo sacramento. Porém, hoje gostaria de refletir sobre a importância da escuta da Palavra e a riqueza que a liturgia da Igreja contém ao nos dar oportunidade de ouvir toda a Sagrada Escritura nas celebrações litúrgicas.

O Tempo Comum, que se inicia após a festa do Batismo do Senhor, é composto por 33 ou 34 semanas do ano que nos fazem refletir e aprofundar os grandes mistérios celebrados nos assim chamados “tempos fortes”: Advento e Natal – encarnação – e a Quaresma e Páscoa – paixão, morte e ressurreição – a nossa redenção.

Portanto, o Tempo Comum nos reporta gradativamente àqueles grandes mistérios, na medida em que nos apresenta a vida pública de Jesus, ou seja, a sua obra de salvação. É o caminhar com Cristo durante o ano, acolhendo o anúncio da boa notícia em nossa vida cotidiana.

O fato de o Tempo Comum vir após o Batismo do Senhor e de Pentecostes nos levar, na primeira parte, a refletir sobre a vida pública de Jesus e a sua missão e, na segunda, sobre a caminhada histórica da Igreja que continua a missão do Senhor, iluminada pela ação do Espírito Santo. Também nos ajuda a apreciar melhor a liturgia no seu desenvolvimento progressivo, episódio após episódio, toda a vida histórica de Jesus, seguindo as narrativas dos Evangelhos.

Temos hoje uma grande riqueza na celebração dominical, pois com a reforma litúrgica pós-conciliar foi introduzida uma distribuição dos evangelhos sinóticos ao longo de três anos, um para cada ciclo (A, B e C ), ou seja, o conteúdo de cada evangelho que desenvolve a vida e a pregação do Senhor. O Evangelho de João é lido no tempo pascal e inserido principalmente em alguns domingos do ano B. Isso proporciona uma harmonia entre o significado de cada evangelista e, também, a evolução do ano litúrgico. Assim, o cristão pode celebrar todos os passos de Jesus não só num ano específico, mas ao longo da vida. E ao final de três anos, o católico que participa da missa dominical terá ouvido todos os Evangelhos com as devidas ligações e interações com os outros textos do Antigo e Novo Testamento, proclamados nas primeiras e segundas leituras das missas.

Domingo após domingo, vamos sendo apresentados à Pessoa de Jesus, na normalidade de sua vida, na simplicidade de seus dias, nos seus gestos do dia a dia, com todo seu ensinamento e a consistência de suas escolhas. Nos dias feriais – durante a semana – o esquema das leituras é diferente, pois temos seis dias para ler em um ano todos os quatro evangelistas, e em dois anos os demais livros do Antigo e Novo Testamento (ano par e ano impar). Além das celebrações especiais dos santos, das solenidades do Senhor, de Maria, da Igreja.

O mistério de Jesus vai sendo revelado a cada dia em nossas vidas, chamando-nos a alimentar-nos dessa presença que nos transforma e conduz a ser fermento no meio da massa no nosso dia a dia. Na sequência litúrgica temos também um retrato profundo e vivo de Jesus, o Filho de Deus que se fez homem e habitou entre nós.

Jesus nos envia pelas estradas do mundo para que, no cotidiano, nos empenhemos na nova evangelização e formemos novos evangelizadores. Nós nos apresentamos ao Senhor, como os Apóstolos, com a consciência da nossa pobreza e das necessidades da Igreja: “Mestre, trabalhamos a noite inteira e não apanhamos nada” (Lc 5,5). Mas, sobretudo “por causa da sua palavra”, no nosso cotidiano queremos crer e esperar que, como então, ainda hoje o Senhor pode encher as barcas de seus apóstolos com uma pesca milagrosa, e transformar cada crente num pescador de homens.

Sigamos o Mestre na sua vida diária. Aproveitemos desse tempo como tempo de fidelidade, de constância, firmando nossa vida na própria vida de Jesus.

Por isso, é importante a nossa presença à missa dominical e, quando possível, também na missa diária. Com certeza, é um sinal de fidelidade a Jesus, e o desejo de seguí-Lo não só em ocasiões especiais, mas também na simplicidade do nosso cotidiano. Veremos como aos poucos nossas vidas, iluminadas pelas celebrações litúrgicas, se transformam no acolhimento d’Aquele que se fez próximo de nós para nos conduzir ao Pai.

Rio de Janeiro, 01 de Fevereiro de 2013 (Zenit.org). Dom Orani Tempesta, O.Cist.

O Ateísmo é uma escolha racional?


A pergunta que colocamos aqui deve ser bem entendida: não perguntamos se os ateus são racionais, coisa que seria absurda; nem mesmo perguntamos se os ateus são inferiores aos teístas, ou se a crença em Deus “não necessariamente torna uma pessoa melhor”, como apareceu numa recente pesquisa no Brasil[1]. O que questionamos agora é se o ateísmo, enquanto sistema de pensamento seja coerente. Mais precisamente, nos perguntamos se é sensato afirmar a não existência de Deus e contemporaneamente o relativismo. Poderia ser verdade que não haja nenhuma verdade e, ao mesmo tempo, ser verdade que Deus não existe?

 Talvez haja quem pense que a questão aqui proposta seja absurda. E pode vir à mente do leitor a recordação do jovem Ivan, personagem de Irmãos Karamázov, que defendia que se Deus e as religiões não existissem, tudo passaria a estar permitido. Aquele personagem manifestava assim o desejo de uma liberação: ao livrar-se da crença em Deus, o homem ficaria livre de todo dogmatismo, tanto teórico, quanto moral. A negação de Deus traria o fim da “lei natural” e do dever de amar o mundo e ao próximo. A mesma liberação quis experimentar F. Nietzsche ao declarar a morte de Deus, ou melhor, ao dizer que os homens o haviam assassinado. De modo que para eles a negação ou “morte” de Deus não estaria fundamentada no relativismo, mas seria a origem mesma do relativismo. A afirmação da não existência de Deus seria uma escolha, algo indiscutível e impossível de ser demonstrado a partir de verdades anteriores. E aceitá-lo seria assumir a crença num novo dogma que faria desmoronar todos os demais dogmas. O ateísmo fundaria assim o relativismo na moral e no conhecimento humano.

Embora isso seja claro, é comum pensar que o relativismo funde o ateísmo; que as pessoas que não aceitam Deus, fazem-no porque não querem aceitar a existência da verdade, à qual deveriam se submeter. Isso é um absurdo. O ateísmo parte de uma afirmação que tem valor de verdade absoluta: Deus não existe. Se essa afirmação não fosse tomada pelos ateus como verdade, eles simplesmente deixariam de ser ateus. O relativismo para eles se dá somente nas “verdades” inferiores e todos deveriam se submeter ao imperativo único da nova moral: é proibido estabelecer regras morais.

O interessante é que F. Nietzsche e outros conhecidos filósofos ateus reconheceram que afirmar o relativismo cognoscitivo e o ateísmo é em si mesmo contraditório. O motivo seria que o relativismo implica a afirmação da não existência de verdades absolutas; mas isso se funda, por sua vez, numa verdade absoluta: a não existência de Deus.

Sendo assim, a afirmação da não existência de Deus implica a afirmação da sua existência. Outros pensadores ateus que perceberam bem as contradições do ateísmo contemporâneo foram M. Horkheimer e Th. Adorno. De fato, eles diziam numa obra conjunta, A Dialética do Iluminismo, citando a Nietzsche: «Percebemos “que também os não conhecedores de hoje, nós, ateus e antimetafísicos, alimentamos ainda o nosso fogo no incêndio de uma fé antiga dois milênios, aquela fé cristã que era já a fé de Platão: ser Deus a verdade e a verdade divina”. Sendo assim, a ciência cai na crítica feita à metafísica. A negação de Deus implica em si uma contradição insuperável, enquanto nega o saber mesmo»[2].

Esses autores, ateus e relativistas, que se reconhecem como “não conhecedores e antimetafísicos” alimentam a verdade de sua fé ateia naquela cristã, já presente em Platão: a fé na existência da verdade divina. De modo que só pode afirmar a não existência de Deus, quem aceita que há uma verdade absoluta, divina. Em outras palavras, só pode negar a Deus quem previamente o afirma. Por isso, o ateísmo, ao negar a Deus e a verdade das coisas (que é sempre relativa ao sujeito que a conhece e é progressiva), reinvindica para si mesmo o caráter absoluto, próprio do mesmo Deus[3], estabelecendo assim um novo dogmatismo. Portanto, o ateísmo não existe; nada mais é do que uma espécie de idolatria que consiste no colocar-se a si mesmo e as próprias convicções pessoais, por mais contraditórias que possam ser, no lugar de Deus, o único que garante toda a verdade.

Pe. Anderson Alves, sacerdote da diocese de Petrópolis – Brasil. Doutorando em Filosofia na Pontificia Università della Santa Croce em Roma.

[1] Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/poder/1206138-tendencia-conservadora-e-forte-no-pais-diz-datafolha.shtml[2] Cfr. F. NIETZSCHE, La gaia scienza, Mondadori, Milano 1971, p. 197; M. HORKHEIMER e Th.ADORNO, Dialettica dell’illuminismo, Einaudi, Torino 1966, p. 125.[3] Para a elaboração do presente texto me foram úteis as reflexões presentes em: U. GALEAZZI, Il coraggio della ragione. Tommaso d’Aquino e l’odierno dibatitto filosofico, Armando, Roma 2012, pp. 22-38.